segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Acende-se uma célula viva

Se olharmos ao nosso redor, certas cidades por onde passamos, ficamos desanimados e temos a impressão de que é impossível construir uma sociedade cristã. O mundo, das vaidades, parece dominar...

Poderíamos dizer que é utópica a realização do testamento de Jesus, se não se pensasse nele que também viu um mundo semelhante a este e no fim de sua vida pareceu ter sido derrotado, vencido pelo mal.

Também Ele olhava para toda aquela multidão a quem amava como a si mesmo. Ele, Deus, que a criara; queria oferecer os laços para reuni-la, como filhos ao Pai, irmão ao irmão.

Viera para recompor a família e fazer de todos uma só coisa. Todavia, apesar de suas palavras de fogo e verdade – que queimava a ramagem inútil das vaidades e desenterrava o eterno, existente no homem – as pessoas, muitas delas, mesmo compreendendo, não queriam aceitar e ficavam com os olhos apagados porque a alma estava às escuras.

E isso porque Deus as criara livres. Ele podia – vindo do Céu à terra – redimi-las todas, apenas com um olhar. Mas, devia deixar para elas – criadas à sua imagem – a alegria da livre conquista.

Olhava o mundo assim como nós o vemos, mas não duvidava.

De noite invocava o céu lá de cima e o céu dentro de si, o Ser verdadeiro, o Tudo real, enquanto fora, pelas ruas, caminhava a nulidade que passa.

Temos que fazer como Ele e não nos separar do Eterno, do Incriado, que é a raiz da criação, e assim acreditar na vitória final da luz sobre as trevas. Passar pelo mundo sem vê-lo. Olhar para o céu que existe também dentro de nós e apegar-nos àquilo que tem ser e valor. Tornarmo-nos uma só coisa com a Trindade que repousa na alma e a ilumina com eterna luz. Então, perceberemos que, com o olhar não mais apagado, olhamos o mundo e as coisas, porém não somos mais nós que as olhamos. É Cristo que olha através de nós e percebe que há cegos precisando de vista, mudos precisando de falar e paralíticos precisando de andar. Cegos da visão de Deus dentro e fora de si; paralíticos desconhecedores da divina vontade que, do fundo do próprio coração, os impele ao movimento eterno, que é o eterno amor.

Vemos e descobrimos neles a nossa própria luz, o nosso verdadeiro eu – Cristo: nossa verdadeira realidade neles. E, tendo-o reencontrado, nos unimos a Ele no irmão. Deste modo acendemos uma célula do Corpo de Cristo, célula viva, morada de Deus, que tem fogo e luz para comunicar aos outros. E Deus faz de duas pessoas uma só coisa e, como terceiro elemento, se coloca como relação entre elas: Jesus no meio.

Assim o amor circula e espontaneamente, como rio impetuoso, arrasta tudo o que os dois possuem, os bens espirituais e os bens materiais. Isto é testemunho eficaz e externo do amor unitivo e verdadeiro.

Mas é preciso ter coragem de não usar outros meios, se quisermos fazer reviver um pouco de cristianismo.

É preciso fazer com que Deus viva dentro de nós, para transbordá-lo aos outros como um hálitos de vida, reanimando os enfraquecidos.

E mantê-lo vivo entre nós, amando-nos.

Então, tudo se revoluciona ao nosso redor: política e arte, escola e trabalho, vida privada e divertimentos. Tudo. Jesus é o homem perfeito que sintetiza em si todos os homens e toda verdade.

E quem encontrou este Homem, encontrou a solução para qualquer problema.

Chiara Lubich