quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Reciclando ideias, atitudes? e vidas

Por: Fernanda Pompermayer


Tinha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta, mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas também sujeito da história”. São palavras de Paulo Freire (1921-1997), filósofo e educador brasileiro, considerado um dos pensadores mais notáveis da pedagogia mundial. A frase adapta-se muito bem a uma experiência-piloto feita no município de Salto, no interior de São Paulo, que se consolidou e se tornou referência no campo ambiental.

Em 2001, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo (IPT-USP) propôs ao município de Salto realizar um projeto-piloto: implantar, com catadores de rua, um tipo de cooperativa com autogestão, inicialmente com o apoio do poder público. A proposta foi logo aceita e recebeu o apoio do prefeito da época, Pilzio Di Lelli, e do então presidente da Câmara Municipal, hoje atual prefeito de Salto, José Geraldo Garcia.

A cidade já possuía um aterro sanitário com avaliação 9,5 por parte da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb).

Para dar início à implantação da cooperativa foi necessária a contratação de um sociólogo, visto que o trabalho consistiria numa ação de inclusão social. Silmara Barbutto de Sousa assumiu a função e hoje é diretora do meio ambiente da Autarquia SAAE Ambiental (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), que tem uma interface com o projeto, juntamente com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Silmara é formada em Ciências Sociais e em História, com pós-graduação em Ecologia e Gestão Ambiental.

Segundo a socióloga, todo o processo de formação da cooperativa – que recebeu o nome de Cooperativa de Reciclagem Boa Esperança de Salto (CORBES) – foi um processo coletivo. “Tratou-se, literalmente, de um processo construído de baixo para cima”, explica a socióloga. Num primeiro momento, os catadores de papel da cidade foram convidados, individualmente, a se associarem. Durante seis meses, realizaram-se reuniões com esses catadores para a discussão de todos os detalhes da cooperativa. Era uma forma de aproveitar e valorizar toda a experiência deles.

Tudo começou assim…

Inicialmente a prefeitura disponibilizou um caminhão para a coleta e um barracão para a triagem dos descartes recicláveis para venda. E assim como os meios materiais foram aumentando com o passar do tempo, o mesmo aconteceu com a adesão da população e, consequentemente, com a quantidade de material coletado e com a renda obtida por meio da venda.

Em 2002 – primeiro ano de funcionamento da CORBES – havia apenas 12 cooperados. O material coletado chegava a três toneladas, contando com o envolvimento de 5% da população de Salto. O faturamento mensal era em torno de 1.800 reais e a renda média retirada para cada cooperado era de 120 reais mensais.

Passados oito anos, o progresso foi notável. De acordo com os dados de abril de 2010, passou a 48 o número de cooperados que recolhem e fazem a triagem de 170 toneladas/mês, coletadas em 50% dos domicílios da cidade. O faturamento aumentou para 1,9 milhão de reais e a renda média mensal dos cooperados para mil reais.

Conscientização e solidariedade

Existe uma parcela da população da cidade que aderiu à coleta seletiva, pois já tem uma consciência formada sobre a necessidade da preservação do planeta. Mas a maior parte da população aderiu por solidariedade para com os cooperados, que até então viviam na marginalidade, revirando lixo, na incerteza de encontrar material aproveitável. Para os habitantes de Salto, o fato de separar o material em casa, sabendo que isso irá gerar renda para 48 famílias, foi um grande estímulo.

Segundo Silmara, “esse processo é irreversível para quem a ele adere. As pessoas não conseguem mais jogar fora o lixo misturado, pois criaram um vínculo com a cooperativa e com os catadores que vão de porta em porta”. O material não é deixado na calçada, e assim há sempre um contato pessoal entre o catador e cada cidadão que colabora com o projeto. “Essa relação direta estabelece um vínculo com a população que hoje vê os catadores não mais como mendigos, mas como agentes ambientais que desempenham um serviço de vital importância para o município e para o planeta”, explica Silmara.

Mudança de vida

Uma característica importante da cooperativa é a predominância feminina entre os associados. Algumas das cooperadas eram vítimas de maus-tratos domésticos, com familiares em situação crônica de desemprego ou até mesmo ausente. Elas deixaram de viver da mendicância e tornaram-se responsáveis pela própria família, sem depender do recebimento de cestas básicas ou da ajuda de instituições.

Segundo Silmara, é visível a evolução das pessoas, que conseguem se transferir para um imóvel melhor e, finalmente, pagar as contas de água e de luz, evitando os cortes frequentes desses serviços. Sem falar no fato de que os filhos hoje têm condições de frequentar a escola.

Edson José de Campos, de 31 anos, conta: “Minha vida melhorou muito; a CORBES me deu muitas oportunidades. Cheguei a sair da cooperativa, mas voltei porque me sinto útil e feliz nesse lugar. Hoje consigo comprar coisas para minha família e dar um futuro melhor para meus filhos. Já passei por algumas situações difíceis e os amigos de trabalho sempre estiveram prontos a ajudar”.

Também Marli Paulo da Silva, de 45 anos, dá o seu depoimento: “A cooperativa mudou muito a minha vida! Estou mais feliz, gosto de fazer o meu serviço que é separação do material recolhido para a reciclagem. Agora, ganho meu dinheiro e posso comprar as coisas de que preciso e pagar as minhas contas. Consegui limpar meu nome no SPC, pois antes não conseguia comprar nada por meu nome estar com restrição”.

Para Jair Araújo dos Santos, 50 anos, a CORBES “foi o único lugar que me deu a oportunidade de trabalhar como motorista”, o que o tirou da interminável lista de desempregados.

Entre outros serviços para os cooperados, a cooperativa oferece uma cobertura na área da saúde (vacinas, exames laboratoriais, assistência psicológica). Tudo é bancado pela prefeitura, que é a incubadora do projeto e que subsidia também as instalações, os equipamentos, a água, a luz, o transporte e assessoria técnica para a gestão do empreendimento.

Hoje a CORBES conta com quatro caminhões – três deles novos –, três prensas e dois galpões repassados pela prefeitura em regime de comodato, sem nenhum custo. Todo o faturamento obtido com a venda é revertido na remuneração dos cooperados, com exceção de pequenas despesas administrativas, que são assumidas pela própria cooperativa.

O local onde funciona a cooperativa tornou-se um espaço de difusão da cultura de preservação ambiental e sustentabilidade e, por isso, recebeu o nome de Espaço Verdenovo. Além dos galpões para o funcionamento da mesma, esse espaço conta com um auditório onde são realizadas palestras, cursos de capacitação e de educação continuada, bem como das assembleias dos cooperados.

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