domingo, 4 de outubro de 2009

A fraternidade começa no local em que vivemos

A cidade: espaço de encontro, de trocas, de diálogo, de realização, mas também de ruptura, de desigualdade, de preconceito. A cidade sempre foi símbolo de sociabilidade, mas cada vez mais parece se tornar sinônimo de individualismo. A criação da cidade está relacionada à busca, na época feudal, por modificar a ordem política, econômica e social então vigente. "O ar da cidade liberta", afirmou o economista Max Weber, um dos fundadores da Sociologia, a respeito da constituição desses espaços de convivência. De fato, com o advento da cidade, deixou de existir o trabalhador dominado pelo senhor feudal e o homem pôde se emancipar econômica e socialmente.
Com a multiplicação das cidades, iniciou-se um processo de luta por direitos ligados à condição humana, como o direito à liberdade e à justiça, que culminou com a Declaração Universal dos Direitos do Homem.Hoje, com o fenômeno da urbanização desenfreada e da globalização, pode-se avaliar que este local de encontro, de lutas e conquistas perdeu a importância para outros espaços, como o cibernético, por exemplo. Além disso, violência, individualismo e anonimato ganharam importância.
No entanto, há um aspecto da cidade que nenhum outro espaço, virtual ou físico, pode superar: a cidade continua sendo o local por excelência onde a fraternidade pode se concretizar. É preciso devolver às cidades a missão de espaço de convivência e coexistência entre as pessoas.
Nesse sentido, a fraternidade deve se tornar um paradigma de como viver na cidade e de agir como cidadão. É um desafio que permite amadurecer em cada indivíduo aquela qualidade típica dos seres humanos que é justamente a dimensão relacional. Assim, será possível resgatar o verdadeiro significado de cidadania.
Hoje, 60% das pessoas vivem nas cidades. Nelas se apresentam os principais desafios para a convivência: o desafio do encontro entre as religiões, entre as culturas, entre as gerações e o desafio da justiça social. Mas, a cidade também é um laboratório privilegiado de recomposição social, de abertura e de flexibilidade, isto é, "um espaço relacional", que leva o indivíduo a escolher viver junto com outros.
"Saberemos realizar juntos uma democracia comunitária, partindo exatamente das cidades. Nelas, as novas possibilidades de participação e uma nova disponibilidade para a escuta abrirão caminhos impensados para resgatar os últimos, os mais excluídos. Saberemos contagiar com a ideia e, sobretudo, com a prática da partilha dos bens, na liberdade, os círculos econômicos e as instituições. Partindo da base, da cidade como dimensão fundamental da política, poderemos oferecer experiências, projetos, ideias úteis, inclusive para renovar a política mundial, hoje enfraquecida por fortes injustiças, demonstrando que é possível a unidade na diversidade, um projeto político compartilhado, respeitando o pluralismo, uma sociedade global, mas feita de mil preciosas identidades", disse Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, numa mensagem enviada a um congresso de políticos latino-americanos.

PROJETO CIDADE
Justamente para transformar as cidades em espaços para a construção da fraternidade, Chiara lançou o "Projeto Cidade". O objetivo do projeto é suscitar iniciativas que estimulem os cidadãos a conhecerem o espaço onde vivem e a transformá-lo em função do bem-comum. O "Projeto Cidade" deveria realizar-se em quatro passos.
O primeiro deles é viver a fraternidade dentro do grupo no qual cada indivíduo está inserido. Esse passo baseia-se na convicção de que a capacidade de relação dos pequenos grupos pode construir um ambiente favorável por meio da criatividade, confiança e generosidade da iniciativa pessoal, do perdão, da reconciliação, da perseverança. Justamente começando relações novas na cidade se torna possível que outros membros da cidade se deixem contagiar pelo desejo de construir uma cidade mais fraterna.
O segundo passo é planejar o trabalho de serviço à própria cidade, começando pelos últimos, isto é, pelos excluídos da sociedade. Não se trata de desenvolver iniciativas para os pobres, os marginalizados, mas fazer com que eles se tornem sujeitos do desenvolvimento de comunidade junto com o grupo.
O terceiro passo é buscar o relacionamento com o local onde se vive. Isso permitirá que cada cidadão conheça a história de sua cidade, as características de sua população e a sua vocação, aquelas características que a torna diferente de todas as outras cidades e que a faz ser uma contribuição para as outras. E diante disso, entender os problemas que devem ser enfrentados para que ela possa render o melhor de si.
O quarto passo é contagiar os outros com o nosso amor pela cidade, ajudando a fazer com que cada cidadão descubra o seu protagonismo na vida da cidade, a sua responsabilidade cívica. Deste modo, a cidade poderá se tornar um mosaico, composto pela harmonia de todos os cidadãos.
Mas os cidadãos não podem olhar somente para a sua própria cidade, eles devem ampliar seu horizonte e pensar em todo o mundo. Afinal, o melhor modo de conhecer a riqueza e a particularidade de cada cidade é colocá-la em reciprocidade com outras. Por isso, o "Projeto Cidade" também tem o objetivo de criar uma rede de cidades, interligando-as, de modo que os cidadãos de cada uma possam conhecer-se, estimar-se, colaborar e apreciar-se reciprocamente. É um desafio enorme, mas o convite vale para todos! É preciso começar!

LONGO PERCURSO
Em seu livro "Cidade e Cidadania: inclusão urbana e justiça social", Luiz César de Queiroz Ribeiro explica que, num primeiro momento, a cidadania se relaciona com a dimensão de civitas que a cidade tinha e, segundo a qual, os homens, vivendo em aglomerados urbanos, contraíam relações fundadas em direitos e deveres mutuamente respeitados.
Segundo o autor, que é também professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com o tempo, somou-se à condição de civitas a de polis, ou seja, o direito de os moradores das cidades participarem nos negócios públicos. No século XIX, a condição de cidadania é expandida, com a inclusão de direitos de proteção do morador da cidade contra o arbítrio do Estado e no final do século XIX e início do século XX, a condição de cidadão passou a expressar também os direitos relacionados à proteção social, que inicialmente eram relacionados aos riscos do trabalho assalariado.
O sentido moderno da palavra cidadania refere-se, portanto, a três dimensões: polis, civitas e societas. Este último está relacionado com a descoberta de que o civitas e o polis somente poderiam existir com o mínimo de justiça social.
Luciana Collet
Editora Cidade Nova